quarta-feira, 1 de julho de 2015

O papa, o ambiente e os animais


A propósito da Encíclica silenciada

Numa região onde (quase todos) os habitantes, se dizem crentes e seguidores da religião católica, estou a estranhar a falta de reações à recente encíclica do Papa Francisco “Laudato si”.
Espero que o silêncio seja apenas devido a falta de tempo para a leitura do texto, dada a sua extensão, e não a qualquer tentativa de atirar para o caixote do lixo um alerta que, apesar de já ter sido feito pelos movimentos ecologistas de vários matizes ao longo dos tempos, é dirigido tanto a crentes como a não crentes para que cooperem para que seja superada a crise ambiental em que o mundo está mergulhado.
Tal como qualquer outro, este documento terá mais do que uma leitura, dependendo dos olhos e do coração de quem o ler. Mas, uma coisa é certa a sua importância não pode ser menosprezada, pois trata-se de um apelo do líder de uma das instituições mais conservadoras do mundo, a igreja católica, ligada, ou obediente, aos interesses dos mais poderosos do Planeta.
Se há quem tenha recebido com muita satisfação a encíclica, há quem já tenha levantado a sua voz a criticá-la, como é o caso dos que beneficiam do crescimento económico sem ouvir “o clamor da terra” e o “clamor dos pobres”. De entre os que devem estar a espumar de raiva encontram-se os donos e defensores da indústria tauromáquica e de outras imbecis tradições que se traduzem em atos de selvajaria perpetrados sobre animais indefesos.
A propósito da defesa dos direitos e do bem-estar animal, já se pronunciou o presidente a associação Vida Animal, Jorge Ribeiro, que depois de afirmar que a encíclica é um dos documentos mais importantes da igreja, que lança um apelo a católicos ou não, cita algumas passagens da mesma que ou não serão lidas ou nunca serão compreendidas por quem, apesar de se dizer praticante de uma religião que condena a tortura, continua a tratar os animais como pedras de calçada e os outros humanos como bestas de carga.
Para elucidar o leitor, abaixo transcrevo algumas das citações da encíclica mencionadas pelo dirigente associativo referido:
“a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas”.
“é contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas vidas”.
Gostava de ter fé e acreditar que os católicos a partir desta encíclica passarão a deixar de promover barbaridades com animais associando-as oportunisticamente às festividades religiosas, mas o mais certo é a mesma continuar a ser ignorada como o foi a bula do Papa Pio V que proibiu as touradas nos seguintes termos:
“ (…) nós, considerando que estes espetáculos que incluem touros e feras no circo ou na praça pública não têm nada a ver com a piedade e a caridade cristã, e querendo abolir estes vergonhosos e sangrentos espetáculos, não de homens, mas do demónio, e tendo em conta a salvação das almas na medida das nossas possibilidades com a ajuda de Deus, proibimos terminantemente por esta nossa constituição (…) a celebração destes espetáculos (…).”
Esta encíclica, também, vai ao encontro de todos os que no movimento ecologista consideram absurdo a defesa de um crescimento económico ilimitado quando os recursos da Terra são finitos. A este propósito o Papa Francisco escreveu:
“Nunca tratamos a nossa casa comum tão mal (…) como nos últimos dois séculos… o ritmo do consumo, do desperdício e a mudança do ambiente superou a capacidade do planeta de tal modo que o atual estilo de vida só pode conduzir à catástrofe”
O papa Francisco, não se esqueceu, à semelhança dos defensores do decrescimento, de defender que está na hora “de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30667, 1 de julho de 2015, p.14)
http://www.correiodosacores.info/index.php/opiniao/14812-a-proposito-da-enciclica-silenciada

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Vila Franca do Campo e o pedestrianismo


Vila Franca do Campo e o pedestrianismo

No passado sábado participei numa ação de formação sobre pedestrianismo e percursos pedestres, realizada na freguesia de Ponta Garça, que teve como promotores a AVIPAA- Associação Vilafranquense de Proteção dos Animais e do Ambiente e a Junta de Freguesia de Ponta Garça.

Infelizmente, não foi uma iniciativa que contou com muita adesão por parte dos habitantes da localidade, mas mesmo assim valeu a pena a sua realização e posso dizer que foi um sucesso dado o interesse pelo tema manifestado pelos participantes e o entusiasmo que manifestaram em melhor conhecer o nosso património natural e, no caso da Junta de Freguesia e dos seus colaboradores, em dotar a freguesia de mais percursos pedestres devidamente balizados e sinalizados para oferecer aos locais e aos turistas.

Aproveito a oportunidade para elogiar o que está a ser feito pela Junta de Freguesia de Ponta Garça no caminho de acesso à Praia da Amora (do Simas) e para dar os parabéns à Junta de Freguesia da Maia pelo notável trabalho feito no percurso que liga o porto daquela freguesia à Praia da Viola, onde a par da limpeza e recuperação do trilho não foi esquecida a plantação de espécies da flora açoriana.

De momento não sei se mais alguma Junta de Freguesia de Vila Franca do Campo está a trabalhar nesta área, mas se não o estiver é uma pena pois o nosso concelho é um dos que mais potencialidades têm na ilha de São Miguel.

Mas, como os meios das juntas de freguesia são limitados, só através de uma parceria com a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo é possível ir mais longe e colocar a nossa vila em lugar de destaque no contexto regional. Neste caso não se pode alegar falta de meios, pois em termos de custos o investimento é ridículo quando comparado com outros e por via dos vários programas regionais a mão-de-obra é abundante.

Com a chegada de muitos mais visitantes através da redução dos custos dos transportes, Vila Franca do Campo não pode deixar de aproveitar a oportunidade para atraí-los para o concelho e, para além do que já existe, há que apostar num espaço que está completamente desaproveitado, para não dizer ao abandono, que é a Lagoa do Congro, que poderia ser transformado em Jardim Botânico e integrado numa rede de Jardins de São Miguel e na recuperação de alguns trilhos pedestres, integrando-os na rede de trilhos pedestres recomendados da Região Autónoma dos Açores.

A minha participação em Ponta Garça na mencionada formação fez-me recordar que há dez anos, numa sessão realizada na Povoação, no âmbito do projeto comunitário TURMAC, apresentei uma comunicação intitulada “A prática do pedestrianismo na Região Autónoma dos Açores” onde fiz um balanço aos primeiros anos da atividade nos Açores, que oficialmente terá dado os primeiros passos com a publicação a 14 de Abril de 2004, do Decreto Legislativo Regional nº 16/2004/A que criou o regime jurídico dos percursos pedestres classificados da RAA.

Na mesma comunicação, também, fiz o ponto de situação relativamente ao número de trilhos recomendados que era o seguinte: Nos Açores existiam 36 percursos recomendados, 12 dos quais na ilha de São Miguel, seguindo-se as ilhas Terceira, São Jorge, Pico e Flores com 4, Santa Maria e Faial com 3 e, por último Graciosa com 2.

Hoje, a situação alterou-se, na maioria das ilhas aumentou o número de percursos recomendados, tendo em São Miguel o seu número quase duplicado. No que diz respeito a Vila Franca do Campo, apenas se mantém o trilho “Praia Lagoa do Fogo”, já que o “Monte Escuro- Vila Franca do Campo” encontra-se fechado (informação recolhida a 14 de junho na página http://trilhos.visitazores.com/pt-pt/trilhos-dos-acores/sao-miguel/monte-escuro-vila-franca-do-campo) e o “Ponta Garça- Ribeira Quente” foi eliminado da lista.

No caso deste último trilho não se percebe a sua eliminação, pois o mesmo não necessita de passar pela Praia da Ribeira da Amora ou dos Moinhos, bastando para isso, pelo menos enquanto não estiver transitável o percurso junto à costa, voltar a ser feito a partir da Gaiteira, mais propriamente da zona dos Tufos, o que corresponde ao primitivo percurso pedestre sinalizado pela Direção Regional de Turismo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30655, 17 de junho de 2015, p.19)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno

A imprensa socialista, a defesa dos animais e Alice Moderno


Na Primeira República a divulgação das ideias socialistas, na ilha de São Miguel, foi feita por três jornais ligados ao Partido Socialista Português: “O Proletário”, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental” e “O Protesto do Povo”, bimensário socialista que teve como redator principal, editor e proprietário Manuel Augusto César, cujo nome também está associado aos outros dois jornais mencionados, como administrador e diretor, respetivamente.

O Proletário, que começou a ser composto e impresso na tipografia de Ruy Moraes, a partir do número 13 passou a ser feito na Tipografia Alice Moderno, localizada na rua da Fonte Velha, 34 e 36, no seu número 23, relativo ao dia 11 de Outubro de 1913, anuncia a abertura, em Ponta Delgada, de “um curso nocturno, regido pela srª D. Alice Moderno, nossa ilustre colega d’A Folha”. Na mesma nota, o jornal chama a atenção dos operários micaelenses para a vantagem do referido curso ocorrer em horário noturno que é o mais adequado para quem trabalha todo o dia já que só à noite aqueles poderão dedicar-se a aprender as primeiras letras.

No seu número 27, de 7 de dezembro de 1913, O Proletário agradece a Alice Moderno a oferta do seu livro “Na Véspera da Incursão”, peça em um ato, dedicada pela autora ao “Senhor Doutor António Joaquim de Sousa Júnior, Sumidade cientifica consagrada nos centros mundiais, açoriano dos que mais alto levantam, no continente da República, o nome do Arquipélago, 1º Ministro da Instrução Pública”. Sobre aquela obra de Alice Moderno o autor do texto, de forma delicada, escusa-se a opinar, limitando-se a escrever o seguinte: “A nossa falta de competência inibe-nos de falar no seu conteúdo, restando-nos apenas dizer o seguinte:- lemos e gostamos.”

A 31 de Agosto de 1918, assinado por FARPA, o Protesto publica um texto onde é exposta a situação dos cães em Ponta Delgada. Segundo o autor do mesmo, “os quadros lastimosos de verdadeira selvageria e crime moral por parte de quem compete olhar pelos animais…irracionais, compreenda-se, são os de inúmeros cães, verdadeiras matilhas sem coleira e sem dono, passearem pelas ruas mais centrais e frequentadas da nossa cidade, caindo aqui e ali com os ataques próprios da tal doença «Esgana» ou então, tossindo n’uma tosse arrepiadora e cavernosa que lhes desconjunta todo o corpo esquelético, sujo e repelente”.

No mesmo texto, o autor junta-se a todas as vozes que em vários locais do país e também em São Miguel têm levantado a sua voz e mostrado a sua indignação face ao bárbaro tratamento dado aos animais de tiro. Segundo ele, também, é “lastimoso e impróprio de nós, gente civilizada, e vem a ser o de fazerem puxar carroças, carros, carrinhos e os carrões que fazem o transporte diário entre algumas vilas e aldeias desta ilha, animais chagados e mal alimentados, com o agravo de lhes porem em cima nos arreios que não são arreios nem são coisa que com arreios se pareçam, antes são instrumentos inquisitoriais, bárbaros e primitivos, que martirizam, inutilizam e chagam todo o corpo d’esses pobres animais que têm a infelicidade de cair na mãos d’uns brutos mais bestas do que as próprias bestas que os acarretam”.

Por último o autor apela, não só ao “coração de mulher” de Alice Moderno mas também pela posição de destaque na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, para que intervenha e “que as autoridades sanitárias, administrativas e policiais, fiquem no descanso eterno de não vale a pena ralar! Para vergonha d’elas e vergonha nossa”.

A 30 de setembro de 1918, O Protesto, através de um curto texto intitulado “Os Aguilhões”, depois de recordar que numa carta publicada no Diário dos Açores alguém pediu que fossem tomadas medidas contra o uso de aguilhões que, apesar de proibidos, eram usados “quotidianamente na inglória, brutal e selvática tarefa de espicaçar os pobres animais, que a maior parte das vezes, estão mortos de cansaço e de fome e que por tal motivo não podem trabalhar, nem exceder as suas forças”, mostra a sua repulsa escrevendo: “Quando presenciamos estes casos diários, dá-nos a gana de desatrelar os animais, e pespegar com o condutor nos varais, arreia-lo e espicaça-lo também, por nossa vez, até que ele gritasse e provasse o atroz sofrimento que dá aos animais. Talvez, então servisse de emenda a todos os tratantes, seus émulos e imitadores”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30650, 10 de junho de 2015, p.2015)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A culpa é das cabras?


A culpa é das cabras?

Quem pretende fazer plantações para os mais diversos fins, nomeadamente de pomares, enfrenta hoje em dia, tal como no passado, muitas dificuldades relacionadas sobretudo com os amigos do alheio que habituados a nada fazer, especializaram-se em colher o que não cultivam e a furtar o que não é seu para vender a gente sem escrúpulos.
A situação, em 1928, era muito semelhante à atual, de tal modo que uma reclamação publicada no Correio dos Açores, no dia 4 de janeiro, podia ter sido escrita hoje, como se poderá comprovar através dos extratos que a seguir divulgamos:
“Com uma inaudita audácia, os cabreiros a tudo chamam seu, destruindo os tapumes, fazendo comer as ervas e as arvorezinhas, ameaçando aqueles que pretendem velar pelo que lhes pertence, exercendo represálias sobre quanto respeite àqueles que promoveram o justo castigo…
Os castigos aplicados, mercê da brandura das nossas leis e, mais ainda, dos nossos costumes, são pequeníssimos e, por esse motivo, absolutamente ineficazes. É indispensável criar em toda a parte posturas draconianas e aplica-las com todo o rigor, para o bem geral.
Melhor ainda seria a proibição da existência de cabras, ao menos em certas regiões, só sendo permitida noutras a indivíduos que se mostrassem proprietários ou rendeiros de terrenos suficientes para a alimentação dos seus gados. Não o sendo, os cabreiros vivem sistematicamente de roubos feitos aos que trabalham, prejudicando não só pelo que consomem as cabras mas, talvez ainda mais, pelo que elas estragam”.
Mas o problema vinha de trás, de tal modo que António Tavares Torres (1856-1936), ilustre intelectual autodidata nascido em Rabo de Peixe que foi presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, numa sessão ordinária daquela autarquia, realizada a 30 de outubro de 1902 propôs uma “postura municipal” destinada a evitar que o número de cabreiros no concelho aumentasse.
De acordo com a referida postura só era permitida a criação de gado caprino e lanígero se o criador provasse ser domo ou rendeiro de uma área mínima por cada animal, sendo o mesmo obrigado a prestar uma fiança para garantir o eventual pagamento de alguma multa e dos prejuízos que o rebanho causasse. Além disso, dentro das localidades só era permitido um máximo de dois indivíduos de cada uma das referidas “espécies”.
Mas, como é habitual nesta região de brandos costumes e de muita tolerância para os gatunos e afins, a postura de pouco mais serviu do que preencher espaço em papel, de tal como que o seu autor, no Correio dos Açores de 10 de fevereiro de 1928, escreveu que era “realmente extraordinária a audácia com que os cabreiros praticam tantas malfeitorias, sem temor das leis nem respeito pelas propriedades alheias” e acrescentou que “parece que os cabreiros, vivendo a vida errante dos gados, se tornam tão selvagens como os próprios animais com que convivem, tornando-se bravios, grosseiros, intratáveis e sem mais noções sociais do que as que o instinto lhes sugere”.
Não podemos dizer que todos os cabreiros são desonestos e ladrões pois acreditamos que tal como noutras profissões haverá trigo e joio, mas se percorrêssemos hoje as nossas freguesias e se interrogássemos as pessoas acerca do comportamento dos cabreiros residentes as respostas não iriam ser muito divergentes, havendo quase unanimidade nos problemas que os mesmos causam às pessoas de bem: é a erva que os animais comem, são as pequenas plantas cujas cascas são roídas e que acabam por morrer, são os atos de vandalismo provocados pelos cabreiros nas divisórias e portões das propriedades, são os animais, as baterias, as rações e as silagens que são roubadas ou vandalizadas, são os cães que estão a proteger as propriedades que são barbaramente mortos, etc., etc…
Para além do mencionado, há um risco para a saúde pública pelo facto de, sobretudo nos períodos de festas, os animais serem abatidos sem qualquer vistoria por parte de um veterinário e por continuar o comércio clandestino de queijo de cabra produzido a partir de animais que não são alvo de qualquer controlo sanitário.
Até quando continuará a impunidade?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30644, 3 de junho de 2015,p.14)