Mostrar mensagens com a etiqueta Salazar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Salazar. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Como foi vivido a atentado a Salazar em Vila Franca do Campo



Como foi vivido o atentado a Salazar em Vila Franca do Campo
Em edição anterior do Correio dos Açores publicámos um texto relativo ao atentado ao Doutor Oliveira Salazar, onde para além de termos referido a obsessão das autoridades por culpabilizar uma determinada força política, mencionamos o modo como alguns jornais reagiram ao mesmo.
Neste texto, vamos divulgar como foi sentido em Vila Franca do Campo o atentado ao Doutor Oliveira Salazar, que ocorreu a 3 de Julho de 1937.
As primeiras referências ao atentado surgiram, em Vila Franca do Campo, no dia 10 de Julho, no jornal “O Autonómico” e no dia seguinte, no jornal “A Crença”.
Com o título “Salazar – nefando atentado”, o redator principal de “O Autonómico”, o Padre João de Melo Bulhões, recordou outros atentados onde foram assassinados D. Carlos, “um grande português, precisamente no momento em que mais se empenhava por fazer sair o país do atoleiro da ignomínia em que as lutas mesquinhas dos partidos políticos o tinham lançado”, Sidónio Pais, “que queria inaugurar uma época de paz e tolerância, após o truculento domínio do democratismo intolerante” e António Granjo, “quando intentava fazer da república um regime para todos os portugueses”.
Sobre o atentado propriamente dito, o Padre João Bulhões escreveu que “a perda de Salazar era uma perda irreparável. Era lançar a nação nas incertezas dum futuro tenebroso”. E termina o texto escrevendo: “Para trás bandoleiros!..Queremos que governe Salazar, porque governando Salazar, sabemos para onde vamos e o futuro que nos espera. Queremos que governe Salazar, porque, governando Salazar, é Portugal que manda e nós somos portugueses.”
No jornal “A Crença”, que era dirigido pelo Padre Ernesto Ferreira e que tinha como proprietário e editor o padre João De Melo Bulhões, do dia 11de Julho de 1937, um pequeno apontamento dá conta que “a notícia do atentado contra o Dr. Oliveira Salazar causou em toda a Ilha de S. Miguel a maior repulsa e indignação, pois tal ato, além de ser vil e cobarde, representa um verdadeiro crime da traição à Pátria, neste momento difícil que atravessamos”.
A 11 de Julho, o Núcleo de Vila Franca do Campo da Legião Portuguesa, organização criada em 1936 com o objetivo de “defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e anarquista”, que mais tarde implementou uma rede de informadores, os “bufos”, mandou rezar uma missa na Matriz de São Miguel Arcanjo “acompanhando o movimento de repulsa que vai por todo o país”.
À missa que foi celebrada pelo Padre João de Melo Bulhões assistiram todos os legionários do núcleo local que era comandado pelo Dr. Luciano Machado Soares, Conservador do Registo Predial da Comarca de Vila Franca do Campo, bem como por “muitas senhoras, várias autoridades, funcionários públicos, cavalheiros de representação e muito povo”.
A 24 de Julho, o jornal “O Autonómico” transcreve um artigo da “pena do Ilustre Diretor de “A VOZ” onde este refere que quem lucraria com o atentado seria “em primeiro lugar os elementos revolucionários portugueses, mais ou menos retintos na vermelhidão, representantes do democratismo burguês ou do marxismo espanhol, que aspira a converter a Península em agregado de republiquetas soviéticas federadas sob a hegemonia de Moscovo”. Por último, a coordenar todas as forças, segundo o citado autor, estaria a Maçonaria que “é pelos seus ensinamentos hipócritas e pela sua sombria e ridícula liturgia, uma escola do assassínio político.”
A 4 de Agosto, o Correio dos Açores divulga uma nota, datada de 21 de Julho, do seu correspondente em Ponta Garça, que supomos ser o professor do ensino primário António de Medeiros Rodrigues, onde este refere que “causou em Ponta Garça a maior repulsa e indignação o vil e monstruoso atentado de que ia sendo vítima, no dia 4 do corrente, em Lisboa, o nosso querido e prestigioso Chefe – Dr. Oliveira Salazar”.
Por último, a 30 de Outubro de 1937, “O Autonómico”, numa nota publicada na primeira página, menciona que “O Sr. Dr. Oliveira Salazar quis ter a gentileza de distinguir a Comissão Administrativa do nosso Município com um atencioso cartão de agradecimentos pelos parabéns e protestos que esta lhe dirigiu contra o vilíssimo atentado de que S. Exª  ia sendo vítima e milagrosamente escapou”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 2986, 1 Janeiro de 2014, p.15)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Atentado a Salazar visto pelos jornais de Ponta Delgada



Atentado a Salazar

A 4 de Julho de 1937, o Doutor António de Oliveira Salazar (1889 1970), presidente do Conselho de Ministros, foi alvo de um atentado perpetrado por anarquistas, sendo o mais conhecido de entre eles o anarco-sindicalista Emídio Santana (1906 - 1988), autor de diversos ensaios sobre o anarco-sindicalismo e o mutualismo, que depois da queda do Estado Novo, em 25 de Abril de 1974, foi um dos fundadores do Movimento Libertário Português e da “Cooperativa Editora A Batalha” e diretor do Jornal “A Batalha”, que ainda hoje se publica.
Emídio Santana, que fugiu de Portugal por via marítima foi detido em Southampton, no Reino Unido, e entregue à polícia portuguesa em Outubro de 1937, no seu livro “História de um atentado: o atentado a Salazar”, publicado em 1976, relata com pormenor o ocorrido. Na referida obra nada lhe escapa, desde a preparação até às peripécias ocorridas depois do atentado, passando pelo ocorrido no dia. 
O jornalista Valdemar Cruz, no seu livro “Histórias secretas do atentado a Salazar”, editado pela primeira vez em 1999 e reeditado em Abril deste ano, por sua vez, dá-nos a conhecer os segredos da investigação policial, os falsos autores do atentado que depois de torturados confessaram o que não fizeram e as duas mortes que nunca ninguém explicou.
Curioso, ou talvez não, foi o papel desempenhado pela comunicação social que, como acontece nas ditaduras sejam elas quais forem, foi na sua maioria fiel aliada ou porta-voz do regime, divulgando todas as mentiras que eram sopradas pela PYDE, que obcecada com o Partido Comunista e em mostrar serviço, quarenta e oito dias depois noticiou a prisão de cinco falsos implicados no atentado.
Em São Miguel, a comunicação social foi unânime na condenação do atentado e na divulgação das várias manifestações de apoio ao Doutor António de Oliveira Salazar, embora o tema que mais preenchesse diariamente as páginas dos jornais, sobretudo do Correio dos Açores, fosse a guerra civil espanhola, entre republicanos e partidários de Francisco Franco, general que liderou um governo de orientação fascista de 1936 a 1975.
Com grande destaque na primeira página, no dia 6 de Julho de 1937, o jornal Correio dos Açores, dirigido por José Bruno Carreiro, refere que “a notícia do atentado contra Salazar …- causou em toda esta nossa ilha de S. Miguel, como não podia deixar de ser – as mais profundas e as mais justas indignações” e acrescenta “com verdade se pode dizer que este momento é uma encruzilhada da história em que se encontram frente a frente, embora pareça um paradoxo, Portugueses portugueses e portugueses que o não são. Para os primeiros vive Portugal, para os segundos vive Moscovo.
A 18 de Julho, o Correio dos Açores transcreve a notícia, publicada no Diário da Manhã oito dias antes, que menciona como culpado o “ignóbil facínora” António Conrado Júnior e como cúmplices, “iguais facínoras de igual jaez: Francisco Horta Catarino e José dos Santos Rocha”.
O Açoriano Oriental, dirigido por Ferreira d’Almeida, no dia 10 de Julho de 1937 apresenta na sua primeira página um texto intitulado “Salvé Salazar! Garantia do Império” onde são feitos elogios ao presidente do Conselho de Ministros e são referidas as manifestações de cariz religioso e cívico de condenação do atentado, realizadas em São Miguel.
A 28 de Agosto, o Açoriano Oriental divulga os nomes dos “autores do execrando crime”: Jacinto Carvalho, António Pires da Silva, Aires do Ascensão Eloy, José Hota e Manuel Francisco Pinhal. No mesmo texto são divulgadas declarações dos investigadores, segundo os quais a responsabilidade do crime era atribuído a organizações terroristas estrangeiras, “o partido comunista português era de nulo valor antes da guerra em Espanha” e os seus “chefes”, José de Sousa e Bento Gonçalves que estiveram na Rússia e receberam instruções do Komintern” eram “de baixa categoria”.
Não deixa de ser estranha a insistência das autoridades em atribuir a culpa aos comunistas quando o PCP, através do jornal “Avante”, saído no final do mês de Julho de 1937, já se havia pronunciado “contra o terrorismo individual porque esta tática só serve os interesses da contrarrevolução – do fascismo”.
Estranho, também, não deixa de ser o facto de os verdadeiros responsáveis pelo atentado, opositores ao regime e ao Partido Comunista, entre os quais Emídio Santana, Francisco Damião e Raul Pimenta, só começarem a ser presos nos últimos dias do mês de Setembro de 1937.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº2983, 27 de Dezembro de 2013, p.21)