quinta-feira, 20 de julho de 2017

Fernando António Monteiro da Câmara Pereira


Fernando António Monteiro da Câmara Pereira

Tenho escrito alguns textos sobre a vida e a obra de algumas pessoas, desde as consideradas personalidades que se distinguiram dos demais através do seu contributo para a sociedade onde estavam inseridos até às que consideradas pessoas comuns, também, deram o seu imprescindível e insubstituível contributo para uma Terra mais humana.
Sempre que pretendo escrever algo sobre açorianos recorro, em primeiro lugar, à Enciclopédia Açoriana. Mas, infelizmente, muitas das minhas pesquisas lá efetuadas não são bem-sucedidas, pois a mesma apresenta omissões inadmissíveis, como é o caso de nela não figurar um conjunto de personalidades que, quer se goste ou não do seu posicionamento político-partidário ou das ideologias que defenderam, foram figuras que se destacaram entre os seus contemporâneos.
Espero não ter sido inábil na pesquisa que efetuei sobre o engenheiro agrónomo Fernando António Monteiro da Câmara Pereira, pessoa que conheci muito bem, já que o mesmo era frequentador assíduo da casa de um familiar ligado ao Partido Socialista.
Embora sem qualquer ligação partidária, também colaborei com ele pontualmente numa sua iniciativa destinada a autarcas socialistas da Ribeira Grande, onde apresentei, em conjunto com outro membro dos Amigos dos Açores uma comunicação sobre autarquias e ambiente.
O Eng.º Fernando Monteiro, natural de Vila do Porto, onde nasceu a 24 de setembro de 1935, foi um político que se distinguiu pela sua dedicação às causas que abraçou, quer antes quer depois do 25 de abril de 1974. Licenciado em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia, no ano de 1962, foi funcionário da Junta do Distrito Autónomo de Ponta Delgada e da Secretaria Regional do Comércio e Indústria, onde chegou a ser Adjunto.
Durante o Estado Novo foi Presidente da Comissão de Distrito da Ação Nacional Popular de Ponta Delgada, tendo apresentado a comunicação «Politização e participação da população na vida política» no único congresso daquela organização que se realizou, em Maio de 1973, em Tomar.
Foi também Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande e deputado na Assembleia Nacional, pelo Círculo de Ponta Delgada, tendo feito parte da Comissão de Política e Administração Geral e Local.
Na Assembleia Nacional, o Engº Fernando Monteiro teve uma participação ativa, com destaque para uma intervenção onde falou nas deficiências existentes nos transportes e comunicações nos Açores, para um requerimento sobre alguns aspetos do abastecimento de gás combustível nos Açores e outra intervenção onde abordou algumas carências da função pública.

Não vamos referir aqui todas as obras executadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, presidida pelo Eng. Fernando Monteiro, apenas registamos a sua preocupação com a educação que se traduziu na instalação, na Ribeira Grande, por sua iniciativa de uma Secção da Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.

O dinamismo que imprimiu à Câmara da Ribeira Grande e as suas qualidades pessoais, que se traduziam num bom relacionamento com os munícipes, fizeram com que houvesse resistência, ao contrário do que aconteceu noutros municípios, à sua substituição na presidência daquela autarquia, depois do 25 de Abril de 1974.

Para que o Engº Fernando Monteiro continuasse à frente da Câmara Municipal da Ribeira Grande foram recolhidas muitas assinaturas e realizou-se uma manifestação de apoio que contou com o apoio de parte da juventude. No folheto, assinado por um grupo de jovens, pode ler-se: “Ide todos, hoje Domingo 16 de junho, pelas 9 horas ao Largo Gaspar Frutuoso (Cascata) apoiar o nosso actual Presidente da Câmara, Eng. Fernando Monteiro que muito democraticamente tem representado os desejos do Povo Ribeiragrandense.”.

O Dr. Manuel Barbosa, conhecido opositor ao Estado Novo, classificou os apoiantes do Eng. Fernando Monteiro de “fascistas besuntados de democratas” e de “rapazelhos e marginais”. Mal sabia ele que entre os jovens que queriam a manutenção do Eng.º Fernando Monteiro no seu cargo estavam familiares seus.

Em breve, voltarei a escrever sobre este homem dinâmico, instruído e culto.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 19 de julho de 2017)

Os Jardins Botânicos e os Animais


Os Jardins Botânicos e os Animais

Há alguns dias estava no Jardim José do Canto, conhecido jardim botânico da nossa terra, quando tive a oportunidade de perguntar a uma visitante que estava acompanhada de duas crianças o que ela achava do mesmo.

A resposta foi positiva, isto é, tinha gostado muito de ver, sobretudo as rosas e as árvores de grande porte, como a árvore-da-borracha-australiana, o pinheiro-de-damara e as araucárias de diversas espécies Mas, a senhora em questão não se ficou por satisfazer a minha curiosidade, tendo, a seguir, perguntado se o jardim não tinha animais.

Depois de lhe ter respondido que não, dizendo-lhe que os jardins botânicos apresentam coleções de plantas, podendo servir para a conservação de algumas espécies e ter uma função educativa, não só para os jovens em idade escolar mas também para o público em geral.

Mais tarde, comecei a pensar melhor no assunto e fiquei sem saber o que pretendia a senhora. Seria mostrar às crianças animais fora do seu habitat, em cativeiro? Além disso, hoje, considero que não soube responder bem, pois devia ter esclarecido que no jardim existiam animais, sobretudo aves, mas em liberdade.

No caso do jardim em questão, para além de uma exposição ao ar livre de cartazes com algumas espécies da avifauna que lá vivem, como o pombo-torcaz, a alvéola, o tentilhão, o melro-negro, o santantoninho ou papinho, a toutinegra, etc., os visitantes poderão não só observá-las como também ouvir o seu canto.

Não posso culpar a senhora de nada, pois muitas vezes só vemos o que procuramos e só damos importância ao que conhecemos e nos ensinaram a valorizar.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 18 de julho de 2017)

terça-feira, 11 de julho de 2017

Antero de Quental e o Anarquismo


Antero de Quental e o Anarquismo

Em 1864 foi criada em Londres a AIT-Associação Internacional dos Trabalhadores no seio da qual existiam diversas tendências socialistas que coexistiram no seu seio durante pouco tempo.

Alguns autores, como César de Oliveira e António Ventura, apontam como a data mais importante para a implantação do anarquismo em Portugal o ano de 1871, quando uma delegação espanhola da AIT, constituída por Anselmo Lorenzo, Francisco Mora e Tomaz Gonzalez Morago, se reuniu em Lisboa com José Fontana, operário nascido na Suiça, mais tarde caixeiro e sócio-gerente da Livraria Bertrand, e o poeta açoriano Antero de Quental.

Depois de um primeiro encontro em casa de Antero de Quental, houve algumas reuniões com outros jovens, entre os quais Jaime Batalha Reis, a bordo de um bote cacilheiro, no rio Tejo. Batalha Reis, depois de lembrar que a ideia do encontro fora de José Fontana que desconfiava que estava a ser seguido pela polícia, escreveu o seguinte: “ Nessa mesma noite fomos ao Aterro, o Antero e eu, pagámos a um barqueiro para nos deixar remar sozinhos no seu bote e fizemo-nos ao largo. A uma hora combinada aproximamo-nos dum outro cais onde o José Fontana nos esperava com os internacionalistas. E durante horas, nessa noite e nas seguintes, sobre o Tejo, enquanto eu remava, o Antero discutia, com os emissários socialistas, a revolução operária que já lavrava na Europa”.

Sobre Antero de Quental, o socialista espanhol Anselmo Lorenzo, cujas ideias eram mais próximas das do russo Mikhail Bakunine do que das do alemão Karl Marx, escreveu, no seu livro “El Proletariado Militante”, o seguinte: “…Quental pareceu-me mais velho e de aspecto não menos simpático e atraente; tinha residido muitos anos em Paris dedicado ao estudo das ciências e tinha uma ilustração vastíssima e um carácter franco e leal que o levava a adoptar os radicalismos que logicamente lhe impunham os seus extensos conhecimentos”.

Os objetivos das reuniões eram divulgar os objetivos da AIT e criar uma secção em Portugal, tarefa que ficou a cargo de José Fontana e de Antero de Quental.

No mesmo ano, é publicada, sem a indicação do autor, a brochura de Antero de Quental, “O que é a Internacional”, onde aquele, segundo Fernando Catroga defende ideias muito próximas das de Proudhon como a abstenção, a mutualidade de serviços e o crédito gratuito.

Antero de Quental, em carta dirigida a Teófilo Braga, confirma a sua pertença à Internacional e em carta a Oliveira Martins confirma nos seguintes termos a autoria do opúsculo “O que é a Internacional”: “Aí vai o primeiro folheto de Propaganda. Não sei se conhecerá que foi escrito por mim, por isso lho declaro (debaixo de sigilo Internacional!). V. sabe das minhas pretensões a Economista – por isso escusado é dizer-lhe a importância que dou às primeiras 20 páginas.”.

Antero de Quental distanciou-se das posições abstencionistas iniciais, tendo apelado à formação de um partido político e sido candidato em vários atos eleitorais, embora tenha declarado que não pretendia ser deputado.

Se é verdade que, numa carta dirigida a W. Storck, Antero de Quental desvalorizou as suas posições políticas anteriores, considerando-as «mistérios da incoerência da mocidade» também não é menos verdade que dois anos antes de morrer, escreveu um texto intitulado “O socialismo e a moral” onde reafirmou a sua concordância com o lema da Internacional “A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos mesmos trabalhadores”, tendo acrescentado que “o problema do Socialismo é essencialmente o problema da organização do trabalho: ora a organização do trabalho depende antes de tudo da capacidade moral dos trabalhadores, isto é, da sua capacidade de ordem, disciplina e justiça”.

Sobre o percurso de Antero, enquanto o anarquista português Júlio Carrapato escreveu: “depois do entusiasmo inicial pela Associação Internacional dos Trabalhadores e da aventura parisiense, resvalou para o reformismo socialista e para um pessimismo místico e bipolar”, Anselmo Lorenzo, considerado "o avô do anarquismo espanhol", escreveu: “Daqueles dois jovens, mortos há já bastantes anos, conservo carinhosas recordações (...). Tenho ideia que os anarquistas portugueses inscrevem os nomes de Fontana e de Quental no catálogo dos bons.”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31276, 12 de julho de 2017, p.16)

Burros do Canadá



Burros do Canadá

Nos últimos tempos, a comunicação social, nomeadamente o jornal Correio dos Açores, tem trazido informações sobre a morte violenta de burros nas Feteiras, sem que até agora se tenha descoberto e castigado devidamente os autores dos mesmos.

A propósito do ocorrido nas Feteiras, lembrei-me de Alice Moderno que há cento e dois anos denunciou, no seu jornal “A Folha”, um tal “Joaquim São Pedro, nome que está em perfeita antítese com as ações que pratica, por ter “barbaramente esfaqueado um animal da raça asinina”, na freguesia do Faial da Terra.

Face ao exposto, conclui-se que os maus tratos a burros não começaram hoje. Com efeito são tradição antiga que, tal como todas as outras que desrespeitam animais e humanos, deve ser banida quanto antes.

Mas os maus tratos de que são alvo os burros não acontecem só por cá. Com efeito, recebemos de uma familiar que reside no Canadá um conjunto de materiais relacionados com a proteção àqueles animais, entre os quais um bonito calendário para 2018, editado pelo “The Donkey Sanctuary of Canadá”.

Através dos materiais recebidos ficamos a saber que aquela organização, sem fins lucrativos, possui um espaço com cerca de 2900 alqueires de terra onde, desde 1992, proporciona um local seguro para burros resgatados que foram negligenciados, abusados ou que os seus proprietários já não podiam cuidar mais deles.

A organização que tem como objetivo reduzir o sofrimento dos burros, vítimas de negligência e maus tratos, e melhorar a sua vida através de interações positivas humanos-burros, permite visitas do público apenas um dia por semana e organiza eventos para famílias com a possibilidade de refeições com comida local, entretenimento e interações com os burros.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31275, 11 de julho de 2017, p.16)
http://www.thedonkeysanctuary.ca/

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Faleceu ontem, 29 de junho, O professor EDUARDO CALISTO


Faleceu ontem, 29 de junho, O professor EDUARDO CALISTO

Eduardo Calisto Soares de Amaral nasceu, na Ribeira das Tainhas, a 13 de Outubro de 1936, tendo-se formado na Escola do Magistério Primário, de Ponta Delgada, em 1955, depois de ter frequentado a Escola Primária Masculina, da sua terra natal, o Externato de Vila Franca.
Professor do primeiro ciclo do ensino básico durante 37 anos, para além de ter lecionado na Ribeira Seca, foi docente nas seguintes escolas primárias: São Miguel, de Vila Franca do Campo, Porto Formoso, Água de Pau, Ponta Garça e Ribeira das Tainhas. Em simultâneo, durante 12 anos, foi professor no Externato de Vila Franca do Campo.
Amante do desporto, foi jogador de futebol e membro da Direção do Clube Desportivo de Vila Franca do Campo.
Foi, também, membro da Direção de Caixa Agrícola e pertenceu à Comissão de Festas do Bom Jesus da Pedra, durante 4 anos.
Na área do associativismo cultural, foi Presidente da Banda da Lealdade durante 6 anos. e fez parte do Grupo de Cantares “Vozes ao Luar”.
O professor Eduardo Calisto Soares de Amaral também tem dedicado a sua vida à escrita, tendo no âmbito do teatro si autor de três revistas, duas na Escola do Porto Formoso e uma na Escola da Ribeira Seca que foi exibida no final de um ano letivo. (Se não me falha a memória, 1965)
Ainda no que diz respeito à escrita, se se consultar os Jornais “A Vila” e “A Crença” constatar-se-á que da sua autoria existem muitas dezenas de textos publicados sobre o ensino, as viagens que fez, sobre como se vivia antigamente, as brincadeiras dos mais novos, as festas de São João, etc.
A 1 de Dezembro de 1966, fruto de um trabalho de uma equipa que o professor Eduardo Calisto Soares de Amaral soube coordenar, realizou-se a bênção do nicho dedicado a Nossa Senhora da Conceição e foi inaugurado um pequeno tanque de natação, a nossa piscina, que pelo seu ineditismo foi motivo de muita admiração. (Faço um aparte para mencionar os nomes dos restantes professores da escola naquela data: Adelaide Soares, Margarida Simas Borges, Claudete Marques, Válter Soares Ferreira e Octávio da Silva Costa).
Foi um dos elementos da equipa que liderada, pelo padre Lucindo Andrade, se responsabilizou pela montagem de um presépio movimentado, iniciado em 1967 com o objetivo de recolher fundos para a Igreja de São Pedro e que atraia, anualmente, milhares de pessoas ao concelho durante a época natalícia.
A abertura da escola à comunidade que já se iniciara nos últimos anos do antigo-regime, foi alargada, após o 25 de Abril de 1974. Com efeito, o professor Eduardo Calisto de Amaral, na qualidade de diretor da Escola da Ribeira Seca, foi pioneiro na abertura das instalações da mesma para a prática desportiva e recreativa dos jovens (que nem sempre souberam corresponder à confiança depositada). Assim, foi cedido, num dos alpendres fechados, um espaço para reuniões da Associação Desportiva e Cultural da Ribeira Seca, a primeira associação de juventude da localidade, que possuidora de uma chave da escola, abria-a e organizava jogos diversos com destaque para o futebol.
Respeitador das nossas tradições, empenhou-se na sua manutenção, tendo, em 1968, organizado a 1ª Marcha as Hortas e sido líder da Marcha da Ribeira Seca durante 30 anos.
Sendo fastidioso mencionar tudo o que o professor Eduardo Calisto de Amaral fez relacionado com as festas de São João, acrescento apenas que, em 1972 fez parte da equipa que organizou as festas em Vila Franca do Campo, em 1992 foi o autor da letra da Marcha da Ribeira Seca e em 2007 foi um dos responsáveis pela coreografia da Marcha da Rua.
Mas, para a Ribeira Seca o ponto alto foi em 1975. Vejamos o que disse o senhor Manuel Soares Ferreira sobre o assunto: “Em 1974, parou. Houve o 25 de Abril. Parou na vila, porque na escola da Ribeira Seca, o professor Calisto fez sempre a festa.”
Em 1975, no recreio da Escola da Ribeira Seca desfilaram três vistosas marchas populares, realizaram-se jogos de voleibol, entre jovens e adultos, e jogos de miniandebol com uma das equipas orientada pelo Emanuel Batista.
Foi também nesta altura, com a anuência do professor Eduardo Calisto de Amaral, que a Ribeira Seca teve vários autores e atores teatrais. Com efeito, por iniciativa de um grupo de habitantes foi ensaiada, na casa do Sr. Álvaro Sardinha, na Rua Nova, uma lição do Menino Tonecas em que os principais intérpretes foram o António José Pacheco, da Rua Nova, e o Eduardo Vicente, do Quartel de São João.
Estávamos muito longe dos currículos regionais, das áreas-escola ou de outras inovações e na Ribeira Seca já se faziam experiências pedagógicas que eram referência para as demais escolas. Assim para além da jardinagem, da criação de animais, menciono a realização durante cerca de 30 anos de uma visita de estudo anual para que as crianças contatassem com a realidade da ilha, nomeadamente instalações fabris e serviços diversos.
Mas, se todas estas realizações, que tiveram a mão e a coordenação do professor Eduardo Calisto de Amaral foram gigantescas, atendendo à dificuldades com que se vivia na época e ao facto da escola ser o único elemento dinamizador da cultura na localidade, só por si justificavam esta justa homenagem que tardou, não devemos esquecer a pessoa em si.
Diria que o professor Eduardo Calisto Amaral, pela maneira de ser, marcou profundamente os seus alunos e pela sua facilidade em se relacionar com os outros granjeou a simpatia da comunidade que tão bem soube servir. Mas, mais importante do que as minhas palavras aqui segue um dos vários depoimentos possíveis:
“ O sr. Calisto, este, de coração grande, mais que mestre era o Pai de todos nós; sempre de sorriso, a todos nos acolhia, ouvindo tudo com atenção, mesmo a queixa mais insignificante do aluno mais humilde” (Maria da Graça Flor de Lima, 15 de Junho de 1992).
A todos os familiares os nossos sentidos pêsames.

Irmandade do Espírito Santo da Rua Nova


Irmandade do Espírito Santo da Rua Nova

Depois de no passado dia 27 de junho ter sido inaugurada a Casa do Divino Espírito Santo, localizada na Rua Autonomia dos Açores, amanhã, 1 de Julho, realiza-se a arrematação de gado pelas 21 horas, seguindo-se a habitual ceia dos criadores.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A constância de dedicados jornalistas


A constância de dedicados jornalistas
Categoria: Opinião
Criado em 20-06-2017

Escrito por João Carlos Tavares

Admiramos a constância de muitos assíduos colaboradores que escrevem sobre temas vários para a nossa imprensa. São, eles e os jornais, os cabouqueiros, os “olhos e a língua do corpo social. Por isso privá-los de meios de informação é privar de voz a sociedade”. Foi assim que Luca de Tena, disse certo dia, acerca dos jornais e dos jornalistas.
No nosso Portugal e especificamente nos Açores os jornalistas, redactores profissionais e colaboradores, são muito constantes nas suas apreciadas crónicas, colunas ou secções, uma tradição que vem dos tempos do surgimento dos Media na Região já a caminho dos dois séculos.
Que nos recorde, já lemos jornais há cerca de 60 anos e desde sempre demos com colaboradores constantes a deporem os seus testemunhos, os seus conhecimentos e as suas opiniões no estilo próprio de cada um e dentro dos meandros impostos pela deontologia. Sempre houve muitos e dedicados ao órgão divulgador dos seus escritos e levaram vidas inteiras com muitos e muitos anos de dedicação às suas tribunas e aos que os liam com agrado e atenção.
Dos nossos tempos de jovem lembramo-nos de escritores como Rebelo Bettencourt, Diniz da Luz, Oliveira San-Bento, Alcindo Coutinho e outros, no velho Diário dos Açores. No jornal Açores, de Jorge Falcão, Carreiro da Costa, Cícero Medeiros, António Horácio Borges, etc. E no circunspecto Correio dos Açores, Manuel Ferreira, Ruy Guilherme de Morais, Gaspar Read Henriques, Gustavo Moura e tantos outros, alguns dos quais, felizmente, ainda na conta dos vivos.
Actualmente, dado os modos de vida, os actuais colaboradores, não obstante as suas tarefas profissionais, continuam a ser dedicados e muito assíduos nas suas contribuições jornalísticas cumprindo compromissos com os devotos leitores.
Nas colunas do Correio dos Açores, por exemplo estão a colaborar jornalistas há muitas dezenas de anos, mesmo na sua presente provecta idade. Ocorre-nos o caso do respeitável senhor Ermelindo Ávila, que escreve, desde a sua ilha Montanha , há muitas dezenas de anos. E para não magoar ninguém não vou referir a outros mais que, desde há longos anos escrevem para o jornal fundado por Bruno Carreiro, com aprumo e dedicação sobre as áreas dos seus gostos e predomínio.
Entre esses jornalistas que aparecem varias vezes por semana, incluindo o António Pedro Costa, está o investigador Teófilo Braga, professor no ensino secundário, natural de Vila Franca do Campo, com temas curiosos e que despertam a atenção dos regionalistas que se interessam pelas plantas, animais e a natureza em geral, a sua terra, bem assim como da biografia das pessoas que , a vários níveis, se têm destacado no âmbito das suas profissões . É impressionante o número de trabalhos de levantamento históricos, literários e outros que o ainda jovem Teófilo Braga, de quem me dizem os vilafranquenses ser um homem respeitado e admirado, tem publicado na imprensa micaelense, nomeadamente, no jornal Correio dos Açores . Semanas há que, da sua pena brotam dois e mais artigos publicados no diário, fundado por José Bruno Carreiro, todos eles com impacto no interesse dos seus leitores particularmente, aqui neste pedaço do mosaico da diáspora que é a Nova Inglaterra.
Da mesma terra de origem de Teófilo Braga, no cenário do nosso convívio do café da manhã no Dunkin Donuts, também propriedade do vilafranquense do António Arruda, a tertúlia sempre atenta à actualidade da terra de origem, fala sobre os acontecimentos nesse convívio , por nós denominada , “revista da imprensa”. O nome de Teófilo Braga, colaborador do Correio dos Açores, tem sido mencionado e referido com encómio os seus trabalhos publicados, especialmente pelos seus patrícios e leitores Gabriel Melo, natural de Ponta Garça e Manuel Brum, ainda aparentado com o jornalista, que é natural da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Curiosamente, estes dois indivíduos são pessoas muito interessadas no estudo da Historia, açoriana, portuguesa e universal e ambos são possuidores de uma privilegiada memória particularmente no que concerne a historia da antiga capital micaelense. O Brum e o Melo são duas inteligências que poderiam ter ido longe, se no tempo devido tivessem sido potencializadas.
O Brum, num desses dias surpreendeu-nos com uma foto que vai “espantar” o jornalista Teofilo Braga, quando nos mostrou um instantâneo da família, com um fundo do que foram talvez os primeiros livros da biblioteca do “primo Teófilo” . Na foto para além da mãe e tias do Teófilo Braga, está o seu avô, um homem respeitado respeitador do lugar Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.
Por seu turno, Gabriel Melo, natural da Ponta Garça, antigo empregado num Posto de recolha de leite conheceu o “tio Soares” na Ribeira Seca e lembrou-se de umas quadras dedicadas ao avô do Teófilo, por uma conhecido poeta popular daquele lugar de Vila Franca do Campo, um tal José Lopes. Dizia assim as quadras em questão:
Dá mais algumas passadas,
Se te queres fazer forte,
Tens já as mãos arroxadas,
É o primeiro sinal da morte!
A quadra não caiu bem no humor do “tio Soares” e este deixou de saudar o repentista Lopes, uma vez que, “tinha desejado a sua morte” .
Mais tarde o velho “ti Lopes” para se redimir, como conhecia fisicamente bem o patrício Soares, atirou-lhe outra quadra, neste tom :
Deus é que tudo destina,
E destina sem enganos,
Homem de canela fina,
Dura até aos cem anos ...
E deste modo, o “tio Soares” reconheceu a velha amizade e fizeram-se as pazes.
De certo que o T. Braga, desconhecia este episódio em que o seu avô protagonizou e cujas quadras ainda perduram na mente de muitos habitantes do concelho de Vila Franca do Campo, como é o caso do Gabriel Melo, uma memória fora do vulgar que, para alem de saber estórias e muita historia universal, conhece biografias de grandes vultos universais, como até conhece a obra de Pessoa e estrofes dos Lusíadas como poucos da sua geração. Já aqui falámos desses dois homens de Vila Franca, Brum e Melo.
Este despretensioso texto foi concebido, principalmente, para surpreender o Teófilo Braga e para lhe dizer que há nestes lados do Atlântico muita e muita boa gente que lê os seus apreciados escritos.

Fonte: https://www.correiodosacores.info/index.php/opiniao/27690-a-constancia-de-dedicados-jornalistas