sábado, 28 de dezembro de 2013

Atentado a Salazar visto pelos jornais de Ponta Delgada



Atentado a Salazar

A 4 de Julho de 1937, o Doutor António de Oliveira Salazar (1889 1970), presidente do Conselho de Ministros, foi alvo de um atentado perpetrado por anarquistas, sendo o mais conhecido de entre eles o anarco-sindicalista Emídio Santana (1906 - 1988), autor de diversos ensaios sobre o anarco-sindicalismo e o mutualismo, que depois da queda do Estado Novo, em 25 de Abril de 1974, foi um dos fundadores do Movimento Libertário Português e da “Cooperativa Editora A Batalha” e diretor do Jornal “A Batalha”, que ainda hoje se publica.
Emídio Santana, que fugiu de Portugal por via marítima foi detido em Southampton, no Reino Unido, e entregue à polícia portuguesa em Outubro de 1937, no seu livro “História de um atentado: o atentado a Salazar”, publicado em 1976, relata com pormenor o ocorrido. Na referida obra nada lhe escapa, desde a preparação até às peripécias ocorridas depois do atentado, passando pelo ocorrido no dia. 
O jornalista Valdemar Cruz, no seu livro “Histórias secretas do atentado a Salazar”, editado pela primeira vez em 1999 e reeditado em Abril deste ano, por sua vez, dá-nos a conhecer os segredos da investigação policial, os falsos autores do atentado que depois de torturados confessaram o que não fizeram e as duas mortes que nunca ninguém explicou.
Curioso, ou talvez não, foi o papel desempenhado pela comunicação social que, como acontece nas ditaduras sejam elas quais forem, foi na sua maioria fiel aliada ou porta-voz do regime, divulgando todas as mentiras que eram sopradas pela PYDE, que obcecada com o Partido Comunista e em mostrar serviço, quarenta e oito dias depois noticiou a prisão de cinco falsos implicados no atentado.
Em São Miguel, a comunicação social foi unânime na condenação do atentado e na divulgação das várias manifestações de apoio ao Doutor António de Oliveira Salazar, embora o tema que mais preenchesse diariamente as páginas dos jornais, sobretudo do Correio dos Açores, fosse a guerra civil espanhola, entre republicanos e partidários de Francisco Franco, general que liderou um governo de orientação fascista de 1936 a 1975.
Com grande destaque na primeira página, no dia 6 de Julho de 1937, o jornal Correio dos Açores, dirigido por José Bruno Carreiro, refere que “a notícia do atentado contra Salazar …- causou em toda esta nossa ilha de S. Miguel, como não podia deixar de ser – as mais profundas e as mais justas indignações” e acrescenta “com verdade se pode dizer que este momento é uma encruzilhada da história em que se encontram frente a frente, embora pareça um paradoxo, Portugueses portugueses e portugueses que o não são. Para os primeiros vive Portugal, para os segundos vive Moscovo.
A 18 de Julho, o Correio dos Açores transcreve a notícia, publicada no Diário da Manhã oito dias antes, que menciona como culpado o “ignóbil facínora” António Conrado Júnior e como cúmplices, “iguais facínoras de igual jaez: Francisco Horta Catarino e José dos Santos Rocha”.
O Açoriano Oriental, dirigido por Ferreira d’Almeida, no dia 10 de Julho de 1937 apresenta na sua primeira página um texto intitulado “Salvé Salazar! Garantia do Império” onde são feitos elogios ao presidente do Conselho de Ministros e são referidas as manifestações de cariz religioso e cívico de condenação do atentado, realizadas em São Miguel.
A 28 de Agosto, o Açoriano Oriental divulga os nomes dos “autores do execrando crime”: Jacinto Carvalho, António Pires da Silva, Aires do Ascensão Eloy, José Hota e Manuel Francisco Pinhal. No mesmo texto são divulgadas declarações dos investigadores, segundo os quais a responsabilidade do crime era atribuído a organizações terroristas estrangeiras, “o partido comunista português era de nulo valor antes da guerra em Espanha” e os seus “chefes”, José de Sousa e Bento Gonçalves que estiveram na Rússia e receberam instruções do Komintern” eram “de baixa categoria”.
Não deixa de ser estranha a insistência das autoridades em atribuir a culpa aos comunistas quando o PCP, através do jornal “Avante”, saído no final do mês de Julho de 1937, já se havia pronunciado “contra o terrorismo individual porque esta tática só serve os interesses da contrarrevolução – do fascismo”.
Estranho, também, não deixa de ser o facto de os verdadeiros responsáveis pelo atentado, opositores ao regime e ao Partido Comunista, entre os quais Emídio Santana, Francisco Damião e Raul Pimenta, só começarem a ser presos nos últimos dias do mês de Setembro de 1937.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº2983, 27 de Dezembro de 2013, p.21)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Gente da nossa terra

Da esquerda para a direita: Emanuel Pacheco, João Pacheco, Vitor Salema
(A Vila, 13 de Julho de 1995)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A Furna do Tetim

(A Vila, 13 de Julho de 1995)

Não nos lembramos das pessoas referidas no texto, mas contaram-nos que uma das pessoas que lá trabalhava era o pai do mestre Artur Couto. Também se dizia que a Furna chegava oa Canto da Ponta Garça, o que nos parece exagerado.
TB

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Memória: moleiro José de Sousa

A Vila, 21 de Julho de 1994

Lagoas, Lagoeiros e Charcos de Vila Franca do Campo



Lagoas, Lagoeiros e Charcos de Vila Franca do Campo

Não há consenso  acerca da classificação das diferentes massas de água, nomeadamente lagos, lagoas e charcos. Contudo, podemos dizer, citando a Campanha “Charcos com Vida”, que “os charcos diferenciam-se dos lagos e das lagoas pela sua baixa profundidade, penetração total da luz na água, possibilidade de ocorrência de plantas em toda a sua área e ausência de estratificação da temperatura da água e de formação de ondas”.

O concelho de Vila Franca do Campo é, não temos dúvidas, um dos mais ricos dos Açores no que diz respeito à presença de diferentes massas de água de dimensões diversas, às quais está associada a beleza paisagística e a riqueza em termos de fauna e flora.

A Lagoa do Fogo, implantada na caldeira de colapso do Vulcão do Fogo, é a única cuja área envolvente mantém, apesar de algumas introduções voluntárias ou não, muitos exemplares da flora primitiva dos Açores que a todo o custo devem ser preservados.

A Lagoa do Congro, assim denominada por ter pertencido a André Gonçalves, cognominado de “o congro”, de acordo com Gaspar Frutuoso, “por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o congro, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar”, está implantada numa cratera de explosão que se terá formado há cerca de 3 900 anos.

José do Canto (1820-1898), grande proprietário e intelectual açoriano, amante da jardinagem e distinto botânico amador, mandou plantar nos terrenos circundantes da lagoa matas de criptomérias, pinheiros, eucaliptos e acácias, tendo também ajardinado a parte sul da sua propriedade e construído uma casa de campo, recentemente demolida.

Durante muitos anos os seus proprietários mantiveram os acessos à lagoa em muito boas condições e procediam à manutenção de toda a área, nomeadamente da antiga mata ajardinada. Mais recentemente a área foi sendo progressivamente abandonada, tendo-se degradado quase por completo.

Depois de sete anos de espera, a proposta de classificação das Lagoas do Congro e dos Nenúfares por parte da Associação Ecológica Amigos dos Açores como área protegida foi aprovada. Assim, em 2007, a cratera do Congro foi classificada como Área Protegida para a gestão de habitats ou espécies (Decreto Legislativo nº15/06/2007) e no ano seguinte parte da bacia hidrográfica foi adquirida pelo Governo Regional dos Açores.

A Lagoa dos Nenúfares, também denominada Lagoa do Conde Botelho, localiza-se na mesma cratera da Lagoa do Congro e encontra-se neste momento bastante assoreada e as suas margens estão cobertas por plantas exóticas. Toda a área envolvente merecia ser alvo de trabalhos de recuperação, nomeadamente o trilho que a bordeja e o caminho de acesso.

Localizada numa cratera de explosão existente no Pico da Dona Guiomar, a Lagoa do Areeiro é de uma beleza paisagística invulgar. No lado sudoeste do pico existe um mato jovem de vegetação endémica que merecia a todo o custo ser conservado.

A Lagoinha, situada na cratera de explosão do Pico da Lagoa, localiza-se a norte da Lagoa do Congro. Como curiosidade regista-se a presença nas suas águas do peixe mosquito. Neste momento, é muito difícil o acesso à mesma já que toda a área envolvente foi replantada recentemente e encontra-se completamente coberta por vegetação, nomeadamente silvas.

Para além destas, há a registar outras massas de água mais pequenas como os lagoeiros do Pico do Frescão, do Pico d’El Rei e dos Espraiados, bem como alguns charcos que antes foram usados para bebedouros do gado bovino.

Para além do valor científico e educativo, do valor estético e paisagístico, as massas de água constituem um poderoso recurso turístico que não está a ser suficientemente explorado no concelho de Vila Franca do Campo.

 Há que por mãos à obra!
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2963, 4 Dez de 2013, p.11)


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pelos Animais de Companhia



PELOS ANIMAIS DE COMPANHIA
"Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo dos animais. Nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade." Leonardo da Vinci

Por iniciativa de Céu Simas e Fátima Cerqueira Rocha, promotoras do evento a nível nacional, realizar-se-ão em frente a algumas Câmaras Municipais de todo o país cordões humanos “pela adoção e esterilização- não ao abate”.

Nos Açores, o evento ocorrerá no próximo domingo, dia 24 de Novembro, pelas 15 horas, em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo, estando prevista a entrega de um manifesto aos presidentes das respetivas câmaras e assembleias municipais no próprio dia ou em data a acordar posteriormente.

Em todos os concelhos a iniciativa é coordenada por uma ou duas pessoas ligadas ou não às associações de proteção de animais existentes. No que se refere à ilha de São Miguel não temos conhecimento da existência de nenhum membro dos órgãos executivos das associações envolvidas na organização do evento e a nível nacional sabemos que algumas associações não se quiseram envolver, alegando terem receio de “represálias” por parte das autarquias com as quais alegadamente dizem manter boas relações.

Esta atitude é, do meu ponto de vista, incompreensível, pois o cordão humano/manifestação é uma das formas que as pessoas têm, em democracia, de manifestar a sua opinião, de comunicar os seus anseios a quem de direito ou expressar a discordância com a política que está a ser seguida para com os animais de companhia.

No caso presente, para além do exposto, é também uma forma de alertar os cidadãos para a necessidade de abandonarem a passividade e participarem ativamente numa causa que cada vez mobiliza mais pessoas e uma forma de sensibilizar os autarcas recentemente eleitos. Por último, o evento pode e servirá, não tenho dúvidas, para juntar pessoas que não se conhecem, para troca de contactos com vista a futuras  atuações em conjunto.

Na maioria dos concelhos será utilizado um manifesto nacional, mas em Vila Franca do Campo os coordenadores acharam por bem adaptá-lo à realidade local. Neste manifesto, entre outras medidas, defende-se:

1-      A criação de um Centro de Recolha Municipal de Acolhimento e Proteção dos Animais onde os animais abandonados, errantes e em risco possam ser recolhidos, recuperados, tratados, identificados, esterilizados e encaminhados para adoção responsável, com uma política de não-abate.

2-      A criação de um Regulamento Municipal de Proteção dos Animais, no qual se definam, de harmonia com a legislação nacional em vigor, normas municipais mais estritas e mais firmes de proteção dos animais, com um sistema contraordenacional e coimas correspondentes, verdadeiramente eficazes para dissuadir/punir eventuais infrações às disposições desse Regulamento e à legislação em vigor de proteção dos animais.

3-      A abertura do Centro de Recolha aos serviços de voluntariado de associações e de grupos de amigos dos animais, nomeadamente aos fins de semana, de modo a garantir o acompanhamento dos animais que ali se encontrem e a poder facilitar contactos com promitentes adotantes.

Esta iniciativa, que esperamos tenha a adesão de muitas pessoas, surge numa altura em que por parte da Assembleia Regional dos Açores há uma abertura para que seja implementada  uma nova política que se traduzirá na esterilização de animais errantes e no estabelecimento de “parcerias que visem uma utilização pública do espaço do Hospital Alice Moderno, em moldes que se mostrem adequados a todas as partes e que respeitem a memória da referência, neste contexto, que é Alice Moderno”

Sobre o assunto do hospital Alice Moderno, o Secretário Regional dos Recursos Naturais, em declarações à Comissão Permanente dos Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, também afirmou que “não veria problema de maior em que se tornasse um hospital público” e abordou a “possibilidade do Governo Regional efetuar algum tipo de protocolo com alguma associação”.

Pelos vistos a “bola” está do lado das associações. Quem dá um passo em frente?

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 2952, 20 de Novembro de 2013, p.16)

Assalto ao Café Salema em 1992


A Vila, 15 de Outubro de 1992

A Joaninha Gigante, 1993


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Casa do Espírito Santo


A Vila, 10 de Setembro de 1992

Alice Moderno




ALICE MODERNO E A PROTEÇÃO DOS ANIMAIS EM VILA FRANCA DO CAMPO

Já por diversas vezes tive a oportunidade de escrever sobre o papel de Alice Moderno (1867-1946) na luta pela proteção dos animais no arquipélago dos Açores, nomeadamente na fundação e dinamização da atividade da Sociedade Micaelenses Protetora dos Animais, na denúncia persistente dos maus tratos infligidos aos animais de companhia e aos usados no transporte de mercadorias e, por último, no seu contributo, através da sua herança, para a construção de um hospital para tratamento dos animais doentes.
Numa altura em que um, ainda pequeno, grupo de vilafranquenses sensíveis à causa animal está a preparar uma ação de sensibilização com vista a minorar o sofrimento dos animais de companhia que são vítimas de maus tratos e de abandono, acabando por ir parar aos canis onde na sua maioria são abatidos, achei por bem dar a conhecer, através dos relatos de Alice Moderno, o que se passava no início do século passado e fazer o confronto com o que se passa hoje.
Começo por recordar que o jornal “O Autonómico”, que se publicou em Vila Franca do Campo, foi um grande defensor dos animais, quer saudando a criação de associações de proteção, quer exigindo o cumprimento do código de posturas municipal, quer denunciando os abusos cometidos.
A este propósito, Alice Moderno, a 13 de Outubro de 1912, denunciou no seu Jornal “A Folha” a existência “na pátria de Bento de Góis” de “um vendilhão de peixe, surdo-mudo de nascença, que espanca o pobre burro que lhe serve de ganha-pão com uma ferocidade inaudita e revoltante”. Segundo ela, que presenciou o episódio, “o pobre burro” foi alvo de “enormes bordoadas” por parte de um “ferocíssimo aborto” que estava “armado de um grosso cacete”.
Hoje, os animais de tiro quase desapareceram e com o seu desaparecimento terão acabado (?) os maus tratos de que eram vítimas e que cheguei a presenciar, na Ribeira Seca, durante a minha infância e juventude. 
Ainda recentemente, tive a oportunidade e a tristeza de observar, em Água d’Alto, um cavalo que estava debilitado, fruto de um alimentação insuficiente e possivelmente de falta de tratamento veterinário adequado.
No que diz respeito ao melhor amigo do homem, o cão, Vila Franca do Campo tem, por um lado, exemplos de pessoas que têm sabido dedicar algum do seu tempo à sua proteção e, por outro, tem exemplos de gente de coração empedernido que trata os animais como se calhaus fossem.
Em 1945, Alice Moderno denunciou, no Diário dos Açores, o facto de “Vila Franca das Flores” se distinguir “pela guerra feita ao mais fiel amigo do homem, o pobre cão”.
No texto referido, intitulado “Envenenamento de um cão”, Alice Moderno menciona as denúncias que tem recebido por parte de vários vilafranquenses, entre os quais o Dr. Urbano Mendonça Dias, relativas ao “lamentável espetáculo que oferecem, expostos nas ruas, cadáveres de cães a que foi propinada estricnina por mão incógnita e impiedosa”.
Por último, Alice Moderno menciona um caso de abandono, muito comum nos dias de hoje, que mostra a crueldade de alguns e a humanidade de outros. Aqui fica o relato:
“Ultimamente deu-se mais um destes casos: um continental saiu da vila abandonando o um pobre cão que possuía.
Uma gentil criança, filha do sr. Manuel Cabral de Melo, residente na rua da Vitória, tomou o desamparado quadrúpede sob a sua proteção, e todos os dias lhe fornecia um repasto que lhe garantia a existência.
Pessoa de mau coração - parece que moradora na mesma rua e muito embora o infeliz animal fosse absolutamente inofensivo, entendeu eliminá-lo da circulação envenenando-o cruelmente com grande mágoa do seu jovem protetor, cujo excelente coração é digno de maiores elogios.
Felizmente, parece que semelhantes casos não se repetirão por muito tempo visto que no continente da República há quem esteja eficazmente ocupando dos direitos dos irracionais e do dever que assiste ao Estado de os proteger”.
Infelizmente, quase setenta anos depois, o flagelo do abandono de animais de companhia ainda não foi debelado. Até quando continuará o crime sem castigo?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2946, 13 de Novembro de 2013, p.16)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A SERPENTINA EM VILA FRANCA DO CAMPO E EM SÃO JORGE


Em texto publicado, no passado dia 30 de Outubro, fiz referência à utilização das duas espécies que têm o nome comum de serpentina. Nesta edição do jornal, limitar-me-ei a escrever sobre a serpentina-mansa (Arum italicum), nomeadamente sobre o seu uso para o fabrico de uma farinha na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo e nas Manadas, ilha de São Jorge. 
Na ilha de São Jorge, a serpentina é também designada por jarroca. De acordo com uma recolha efetuada há alguns anos pelo Centro de Jovens Naturalistas de São Jorge, junto da família Raposos da localidade das Manadas, a soca era apanhada nos meses de Abril e de Maio.
Depois de colhidas as socas eram lavadas e raspadas com uma faca para retirar a “pele” e a seguir eram moídas num moinho de carne. A polpa obtida era colocada num alguidar com água que era mudada durante três dias. Em seguida, era escorrida e colocada num tabuleiro até secar bem.
Para além de ser usada no fabrico de papas, a farinha de serpentina era tida, em São Jorge, como bom remédio para “a diarreia de pessoas e animais”.
Ainda de acordo com a mesma fonte, a farinha de serpentina também era usada para fazer goma, procedendo-se do seguinte modo: “Para tal, dissolve-se, em água fria, a farinha de jarroca, junta-se água a ferver e, enquanto morna, molha-se a roupa que se põe a secar. Ainda húmida passa-se o ferro até enxugar”.
Por último, na mesma nota que vimos referindo e que foi da autoria da senhora Maria José Silveira Azevedo, das Manadas, ficamos a saber que “em tempos de fome, o povo ia pelos “biscoitos” e matas procurar a soca de jarroca e a soca de feto para fazer farinha com que preparava uma massa que era cozida em bolos, no tijolo”.
Na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, na década de 70 do século passado, alguns homens, sobretudo camponeses sem terra, dedicavam-se à recolha da serpentina para compensar a falta de trabalho em alguns meses do ano. Lembro-me de ver alguns deles com sacas às costas e a deixá-las na casa da senhora Antonina “Trovoa” que morava na rua do Jogo.
Segundo Manuel Francisco, sobrinho de Antonina “Trovoa”, grande parte da farinha produzida na Ribeira Seca era vendida para Ribeira Grande, presumivelmente para Ezequiel Moreira da Silva que chegou a fazer a sua exportação para Lisboa.
Na altura, era muito fácil encontrá-la na Ribeira Seca ou nas localidades vizinhas, enquanto hoje a bibliografia menciona a sua abundância sobretudo na Ribeira Chã e nos Arrifes. Nas minhas caminhadas pela ilha de São Miguel, tenho-a encontrado um pouco por toda a parte, sendo muito fácil encontrá-la no Pico da Pedra.
Em conversa recente com Madalena Oliveira, moradora na rua da Cruz, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, talvez a única pessoa que ainda mantém viva a tradição no concelho, confirmei tudo o que havia tomado conhecimento através de diversa bibliografia consultada, a qual não incluía o livro recentemente, e em boa hora, editado pela Junta de Freguesia da Ribeira Chã “Serpentina Uma Tradição de Raiz”, da autoria de Teresa Perdição.
Madalena Oliveira que, aprendeu com sua mãe, Maria dos Anjos Salema Carreiro, e sua avó, referiu que a recolha dos rizomas é feita antes de a plantas espigarem, sobretudo nos meses de Fevereiro e Março, mês em que obteve melhores resultados.
Como principais instrumentos usados na transformação dos rizomas em farinha, Madalena Oliveira mencionou um ralador adaptado para o efeito, uma peneira de milho, uma dorna de madeira e panas de plástico que substituíram os alguidares de barro. Longe vão os tempos, referidos por Silvano Pereira, em 1947, em que os rizomas eram desgastados “pela fricção contra uma pedra ou tábua de lavar”.
Numa altura em que está difícil a vida para quem vive do seu trabalho, a recuperação e valorização de conhecimentos e práticas antigas deve merecer o carinho de quem tem nas suas mãos a gestão da coisa pública, a começar pelas Juntas de Freguesia que são quem está em contato direto com as populações.
No passado, escreveu Silvano Pereira, o fabrico de farinha de serpentina constituiu “uma pequena indústria rural” que deu origem a “um comércio de certa importância”. Hoje, poderá ser um complemento ao rendimento de algumas famílias.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2940, 6 de Novembro de 2013, p.16)


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Serpentinas



SERPENTINAS

Quando era criança as pessoas, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, davam o nome de serpentina a duas espécies de plantas diferentes, pertencentes à mesma família, embora com algumas semelhanças no que respeita às suas folhas.
As duas espécies em causa são a serpentina ou serpentina-mansa ou serpentinhola ou jarroca ou saprintina ou jarro (Arum italicum), nativa do Sul e Oeste da Europa, da qual se extraia uma “farinha” que era e ainda é usada na alimentação e o jarro ou serpentina-brava (Zantedeschia aethiopica), nativa do Sul de África, cujas flores eram e são usadas para ornamentar as casas, igrejas ou enfeitar os caminhos aquando das procissões.
O padre Ernesto Ferreira, no capítulo “Plantas Maravilhosas” do seu livro “A Alma do Povo Micaelense” menciona o facto de a serpentina ser usada para prever “se o ano agrícola será farto ou não”.
Segundo o referido sacerdote, para chegar ao resultado final eram seguidos alguns passos que a seguir se transcrevem:
“Tiram-lhe os aldeões a espata, em janeiro, quando a inflorescência deve ter atingido o seu maior grau de desenvolvimento, e o espadice dividem-no em três secções. Se a primeira, isto é, a inferior, está bem desenvolvida, haverá muita fava; se a segunda, ou a do meio, é que está bem desenvolvida, haverá muito trigo; e se é a terceira, ou a superior, haverá muito milho. Se é perfeito o estado das três secções, haverá muita fava, muito trigo e muito milho”.
Como o mês referido é janeiro e como, de acordo com a bibliografia consultada, a serpentina floresce nos meses de Abril e Maio, penso que o Padre Ernesto Ferreira terá feito referência ao jarro (Zantedeschia aethiopica), que floresce de Novembro a Junho, e não à serpentina (Arum italicum).
Em criança, também por várias vezes, comi as papas de serpentina (Arum italicum) cuja farinha era produzida por algumas pessoas na Ribeira Seca, de que me lembro as duas irmãs Almirantina “Trovoa” e Antónia “Trovoa”.
Muitos anos depois, cheguei a ir à Ribeira Chã, a uma das famosas feiras gastronómicas já realizada após o falecimento do Padre Caetano Flores, apenas para voltar a comer as papas de serpentina e pouco tempo depois comprei, também na Ribeira Chã, alguma farinha para usar em casa.
Passados cerca de 40 anos, em conversa com o Manuel Francisco, filho e sobrinho das pessoas mencionadas, e com meu primo José Fernando Araújo fiquei a saber que as minhas tias Laurentina e Maria do Carmo Braga também preparavam a farinha de serpentina e que ainda hoje há quem o faça na Ribeira Seca.
Vários autores têm ao longo do tempo feito menção à serpentina.
 Edmond Goeze, que foi diretor do Jardim Botânico de Coimbra e que se deslocou a São Miguel, em 1866, tendo aproveitado para levar para o jardim Botânico de Coimbra mais de 800 espécies, numa brochura editada em 1867, atualizou uma lista de plantas herbáceas da autoria do naturalista francês Morelet.
Da mencionada lista fazem parte a serpentina e o jarro. Da primeira planta escreve Goeze que da sua raiz se extrai uma ótima fécula e da segunda menciona o seu uso para alimento de porcos.
Em 1871, Acúrcio Garcia Ramos escreve que a serpentina “é muito vulgar nos logares frescos e húmidos  que se emprega na sustentação de animaes, e de cuja raiz de extrae uma fécula excelente”.
 Por sua vez Gabriel d’Almeida, em 1893, escreve que da “raiz” da serpentina se extrai fécula “que é empregada geralmente no sustento dos animaes” e enquanto o jarro “serve para sustentar porcos”.
Na pesquisa que efetuei na Ribeira Seca, várias das pessoas contatadas afirmaram que para alimentar os porcos, toda a planta dos jarros (caules, folhas e tubérculos), tinha de passar por uma cozedura.
Desconheço com quem o povo aprendeu, mas uma coisa é certa, sem o cozimento a planta seria extremamente tóxica para os animais.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 2934, 30 de Outubro de 2013, p.16)

terça-feira, 22 de outubro de 2013



POR UMA MERECIDA HOMENAGEM AO
PROFESSOR EDUARDO CALISTO AMARAL

Durante vários anos o professor Eduardo Calisto do Amaral coordenou uma equipa de professores que foi pioneira na integração da Escola da Ribeira Seca com a comunidade onde esta se inseria.
De entre as inovações introduzidas, a título de exemplo, destacamos as Festas Anuais Escolares, as marchas de São João quando a Vila não as fez e a construção de uma “piscina” para a aprendizagem da natação. Digno de registo foi, também, a cedência das instalações da escola, sem exigências formais, a um grupo de jovens para a prática da atividade desportiva.
Atendendo a que:
1-      Não aceitamos que o patrono da nossa escola seja um professor que teve uma passagem fugaz pela mesma;
2-      O senhor professor Eduardo Calisto Amaral foi diretor da Escola da Ribeira Seca durante muitos anos;
3-      O senhor professor Eduardo Calisto Amaral, pelo seu trabalho, dedicação e maneira de ser marcou profundamente os seus alunos e pela sua facilidade em se relacionar com os outros granjeou a simpatia da comunidade que tão bem soube servir.

Nós, antigos alunos daquela escola, pais de alunos da mesma, moradores da Ribeira Seca e Vilafranquenses espalhados pelos quatro cantos do mundo, vimos apelar a Vossas Excelências para que revejam a imponderada deliberação tomada há alguns anos, atribuindo o nome de Eduardo Calisto do Amaral à escola do primeiro ciclo da Ribeira Seca.

Os primeiros signatários:

- Teófilo José Soares de Braga
- Maria Antónia Fraga
- Berta dos Anjos Cabral Raposo


domingo, 20 de outubro de 2013



Eleitores ladrões

Hoje é dia de eleições em Vila Franca do Campo e às urnas irão bons e maus cidadãos, gente honesta e desonesta, pessoas respeitadoras do património alheio e ladrões.
Ontem, quando me preparava para colher castanhas de uns castanheiros que tenho na Ribeira Seca, senti umas vozes que provinham do local onde eles se encontram. Como já havia sido ameaçado de morte por alguém que não consegui identificar e que estava a cortar uma criptoméria que me pertencia, por prudência decidi não me aproximar do local.
Assim, fiquei à espera para tentar identificar os amigos do alheio. Passados alguns minutos, vi que dois indivíduos que não têm propriedades na zona e que não consegui identificar traziam três sacos de plástico com castanhas.
Na tentativa de os identificar, deixei-os passar na esperança de que fossem identificados pelos populares que normalmente se encontram no Canto da Cruz e ao fim de alguns minutos desci até ao centro da freguesia e qual não foi o meu espanto quando os vi entrar numa moradia na rua da Cruz.
Depois de um deles ser identificado, fiquei a saber que é filho de “boas famílias” e que é casado com uma senhora que também é filha de “boas famílias”.
Mas como nem sempre o ditado “tal pai tal filho” é para ser levado à letra fiquei a saber por uma pessoa da família que um deles era um malandro, um drogado, que vivia à custa de dinheiro do estado e já agora, também, do meu.
Hoje, vão comemorar a eleição do presidente da Câmara de Vila Franca do Campo, comendo as minhas castanhas e bebendo à custa dos meus impostos.
São coisas desta falsa democracia permissiva, onde quem não come à custa dos outros tem a vida dificultada.
Sou roubado pelos de cima (Estado) e sou roubado pelos de baixo que contam com a complacência daqueles.
Teófilo Braga
Nota- Não quero ofender a gente honesta da rua da Cruz, mas se colocasse aqui o número da porta era capaz de ser processado por ofender o “bom nome” que qualquer ladrão acha que deve ter.