quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O pioneirismo do jornal vilafranquense “O Autonómico” (2)



Defesa animal: o pioneirismo do jornal vilafranquense “O Autonómico” (2)
Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto? Porque é que eu não posso ficar insensível à ideia de que um pobre animal sofre, a ponto de me erguer de noite, em pleno inverno, para me certificar de que ao meu gato não falta ração de água? Por que é que a todos os seres da criação considero como relacionados comigo, e a sua lembrança me enche de comiseração, de tolerância e de ternura? Porque os animais fazem também parte da comunidade a que pertenço e a que pertencem todos os meus semelhantes!” (Emílio Zola)
No último texto publicado neste jornal referimos a atitude precursora do jornal “O Autonómico no que diz respeito à proteção dos animais e apresentamos como exemplo a preocupação de alguns dos seus colaboradores relativamente às aves engaioladas e à (má) sorte dos cães.
Neste número do jornal, faremos referência a espécies e atividades, não mencionadas no anterior, que eram alvo de textos de vários colaboradores e do próprio proprietário e editor do jornal, António Rodrigues Carroça.
A 7 de Agosto de 1937, “O Autonómico” publicou um “Apelo de Cavalo”, onde este implora ao seu dono para que lhe dê de comer, lhe mate a sede e o guarde no fim do dia ou do trabalho em “lugar asseado, seco e ao abrigo das intempéries”.
O cavalo, também, pede para que seja poupado ao “suplício das chicotadas” e para que o dono averigue se está tudo bem no que diz respeito aos arreios e se as ferraduras estão em condições de não magoar as suas patas.
Por fim, o cavalo solicita “em nome de Aquele que quis nascer numa estrebaria” para que quando a velhice chegar não seja condenado “a morrer de fome e de doenças sob o chicote de algum carroceiro cruel”.
 A 5 de Fevereiro de 1938, Luís Leitão, que compilava e por vezes traduzia pequenos textos de vários autores, cita Alfredo Gallis (1859-1910), jornalista e romancista muito conhecido nos finais do século XIX, que sobre as corridas de touros escreveu o seguinte: “A tourada como simples recreio é fatigante e brutal, e como princípio educativo, porque os divertimentos públicos devem sempre conter este princípio, considero-a a mais perniciosa e selvagem possível”. Hoje, este pensamento adquire cada vez mais adeptos que não admitem que qualquer tradição por mais antiga que seja se possa sobrepor ao sofrimento de seres humanos ou de quaisquer outros animais para divertimento de uns poucos ditos racionais.
Nos últimos anos tem crescido, em todo o mundo, o número de organizações e ativistas que se opõem a todos os desportos em que há sofrimento animal. Sobre o assunto, a 23 de Dezembro de 1939, Luís Leitão divulgou um texto publicado na revista belga “Nos Meilleurs Amis” onde são condenados os “jogos desportivos que produzem ou importam sofrimentos não merecidos aos animais”. No referido texto o autor condena-os também porque os mesmos foram criados e mantidos “pelas classes mais altas, aquelas que não podem invocar a ignorância como desculpa nem a falta de educação…”
E quais eram os jogos que, de acordo com a revista, deveriam ser banidos? A resposta da mesma é a seguinte: “sob o ponto de vista moral não deve admitir-se nenhuma corrida de cavalos, o tiro aos pombos, as touradas e os combates de galos – tudo diversões cruéis e imorais”.
Tal como era então denunciado por outros jornais locais, “O Autonómico” alertava para os maus tratos que eram infligidos aos animais de tiro e que ainda hoje prosseguem, embora cremos que em menor número não devido à compaixão dos seus donos mas porque os mesmos foram substituídos por veículos motorizados.
A 18 de Setembro de 1943, o jornal alertava para a necessidade de haver “uma constante fiscalização nos caminhos, ruas e estradas, sobre o modo como são carregadas as carroças puxadas por muares, bestas cavalares e especialmente bois” pois “alguns condutores de carroças e proprietários das mesmas entendem que estas mesmas carroças devem trazer toda a beterraba de uma só vez, para economia de tempo e de frete”.
Para além do excesso de carga, o jornal aponta o facto de muitos dos condutores usarem “compridos e agudíssimos aguilhões nas pontas das varas com que tangem os animais, o que é um barbarismo e uma malvadez”.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 3012, 5 de Fevereiro de 2014, p.16)

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